terça-feira, 13 de março de 2012
Antes que seja tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos
"
segunda-feira, 12 de março de 2012

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
(…)
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa, Facilidade do Ar, 1990
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Para vós o meu canto ............... Sidónio Muralha
Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos,
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida margura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais um leito dum rio;
- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim e confio;
- para vós os meus versos, companheiros da vida!
Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios para cantar...
Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
a crivo de bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.
E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia de Juízo...
Que o Dia do Juízo
não é no céu... é na Terra!
-
Sidónio Muralha
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Poemas de ponta & mola
poesia & poesia
poesia pró coração
poesia procuração
poesia rissóis pra fora
poesia para a velhice
para atrasados mentais
e também prá parvoíce
poesia libidinosa
para acordar os chéchés
e pra outras coisas mais
a poesia cor-de-rosa
para corações doentes
de donzelas suspirosas
rosas rosas amarelas
poesia clorofilada
para lavagem de dentes
poesia para o natal
expressamente encomendada
e poesia natalícia
pró menino dos papás
a poesia necrológica
dum velhinho trucla zás
a poesia só formal
porque o poeta coitado
tem o vício de escrever
a poesia cautelosa
porqu’isto nunca se sabe
a poesia fadunchada
e uma fadista aluada
a poesia da borbulha
que passa depois daquilo
poesia obrigada a mote
a cavalo num poeta
sentado num burro a trote
a poesia pra que conste
dum poeta muito muito
muito muito muito bicha
poesia quinquagenária
duma jovem rapariga
poesia bordada à mão
dum ancião já sem pé
a poesia ao pé da mão
a poesia ao pé do pé
poesia encapada capada
poesia para tudo
poesia para nada
poesia pró coração
poesia procuração
poesia rissóis pra fora
poesia para a velhice
para atrasados mentais
e também prá parvoíce
poesia libidinosa
para acordar os chéchés
e pra outras coisas mais
a poesia cor-de-rosa
para corações doentes
de donzelas suspirosas
rosas rosas amarelas
poesia clorofilada
para lavagem de dentes
poesia para o natal
expressamente encomendada
e poesia natalícia
pró menino dos papás
a poesia necrológica
dum velhinho trucla zás
a poesia só formal
porque o poeta coitado
tem o vício de escrever
a poesia cautelosa
porqu’isto nunca se sabe
a poesia fadunchada
e uma fadista aluada
a poesia da borbulha
que passa depois daquilo
poesia obrigada a mote
a cavalo num poeta
sentado num burro a trote
a poesia pra que conste
dum poeta muito muito
muito muito muito bicha
poesia quinquagenária
duma jovem rapariga
poesia bordada à mão
dum ancião já sem pé
a poesia ao pé da mão
a poesia ao pé do pé
poesia encapada capada
poesia para tudo
poesia para nada
Mendes de Carvalho "Poemas de ponta & mola"
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