sexta-feira, 21 de outubro de 2011


RONDA


Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...


Na dança dos dias
meus dedos cansaram...
Na dança dos meses
meus olhos choraram


Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!


Na dança dos meses
meus olhos cansaram...


Na dança do tempo,
quem não se cansou?!


Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...


Dizei-me, dizei-me,
até quando? até quando


Alda Lara

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Canção
Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.


Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!


ALEXANDRE O' NEILL [Lisboa, 1924 - Lisboa, 1986),
in ABANDONO VIGIADO, 1960

sábado, 28 de maio de 2011

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa (1924), in "Viagem Através de uma Nebulosa"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

" Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."
José de Almada-Negreiros, O Livro